As lições que os(as) estudantes nos dão

Publicado em 17 de outubro de 2016 por diangela

Pedro Macedo

Por Luis Alves Pequeno, professor, educador popular do Cefuria, empreendedor na economia popular solidária e autor do blog Pequeno Educador

A tentativa fracassada do governo Temerário de mexer nas regras, conteúdos e disciplinas do Ensino Médio sem discussão ampla com a sociedade continua a produzir efeitos maravilhosos. Segundo informações oficiais do movimento Ocupa Paraná, durante a escrita deste texto, na data de 15 de outubro, início da manhã, são 444 escolas e 6 universidades ocupadas em todo o Estado.

Aquilo que era um fenômeno tido como isolado, restrito apenas aos estudantes de São José dos Pinhais, reverberou de tal forma que se espalha até outros Estados da nação. Realmente os(as) secundaristas não estão para falta de diálogo. Querem o diálogo.

De forma impressionante, sem grana, sem muita burocracia e com a ousadia que a própria idade lhes possibilita, adolescentes e jovens, apoiados por seus pais e professores, funcionários da e algumas direções escolares, protagonizam um grande fórum de debates sobre o que é Educação, o que é e o que deveria ser a Escola.

Ao visitar uma dessas experiências, no Colégio Estadual Pedro Macedo, bairro Portão, em Curitiba, vivemos e apreciamos o que aqui é impossível de materializar em letras. A galera tem se portado de um jeito único e nunca antes visto em nossa trajetória pessoal de magistério, nas áreas pública e particular. Há um exercício de autogestão e partilha de responsabilidades que vão desde o acesso ao portão, onde se revista bolsas dos recém-chegados, checagem do documento de identificação, anotação em livro próprio, interrogação sobre o que veio fazer no Colégio, são só os primeiros atos.

Percorrendo as instalações públicas, vê-se tudo no seu devido lugar, limpo, arrumado, delimitado; cozinha assumida em rodízio de participantes; limpeza idem; insumos para preparar as refeições estocados de forma organizada e visivelmente pública, para o controle de estoque do que tem e o que pode faltar; acompanhamento e intermediação de pais, responsáveis, professores, instituições e pessoas voluntárias na ajuda e suporte; Rodas de conversa, aulões para o Enem, voluntariamente assumidos por professores(as) de todos os setores da cidade; Atividades culturais. Enfim, se não ouviram dizer sobre a Comuna de Paris, experiência vivenciada por trabalhadores(as), nos idos de 1871, mesmo sem conhecê-la, estão rememorando seus princípios e vivenciando suas aspirações. Essas escolas jamais serão as mesmas.

Na roda de conversa com temática alusiva à democratização dos meios de comunicação, em que eu e amigas, integrantes da Frente Paranaense pelo Direito à Comunicação e Liberdade de Expressão (Frentex-PR), nos dispusemos em animar, muito se construiu, de lá e de cá. Todos(as) aprendemos mutuamente.

Uma das estudantes agradeceu muito a nossa presença dizendo que alguns adultos geralmente “não entendem” o que está ocorrendo e temem pelo que pode ocorrer a partir de tal movimento. Outra estudante diz que não há apoio integral de sua presença na Escola, por parte de seus familiares. Mas, ainda assim, insiste no que acredita ser transformador. Questionada pelo irmão mais velho se sabia o que estava indo assumir na ocupação, confirmou positivamente, sem titubear.

Não ao o que temer para aquilo que é explícito, líquido e certo. O Ensino Médio precisa de mudanças, mas não de retrocessos. E é essa a certeza que move a todos(as): profissionais da educação, estudantes, comunidade escolar.

Retornar, 25 anos mais tarde ao colégio em que estagiávamos e onde aprendemos os primeiros passos sobre o magistério e a arte de ensinar-aprender, já é uma experiência agradável. Visitá-lo num contexto educativo, pedagógico, de luta e resistência, de proposição e aprendizagem como o que ora estamos presenciando, experiência ainda mais inesquecível.

Se o (des)governo Richa pensa que conseguirá reprimir o movimento, engana-se redondamente. Ele não tem dono e não tem líder, não tem sindicato e não tem instituto. Ele é fruto da própria ineficiência estatal que não consegue transpor a medíocre tabela de conteúdos arcaicos e a defasagem salarial que assola a vida e a profissão de nossos professores(as) que hoje, em seu dia, têm mais a se preocupar, que comemorar.

A decisão judicial de não conceder reintegração de posse das escolas estaduais, divulgada na manhã desta sexta-feira (14), paralisa os pedidos de reintegração movidos pelo governo do Estado, em trâmite na Vara da Fazenda Pública de São José dos Pinhais. Isso é o reconhecimento de que o Estado precisa exercer aquilo que propaga.

A democracia e o diálogo não são discursos televisivos. O salto alto dos gestores e a arrogância no trato com profissionais da educação tem seu preço. E nos estudantes não manda o governo. Eles são responsabilidade dos pais ou responsáveis e do próprio Conselho Tutelar, em último caso, que é instância governamental municipal. Como seria uma reintegração de posse do Estado contra ele próprio?

Enfim, se há algo a fazer nesse momento histórico e inédito, é aprender. Ouvir e ver com e de toda essa massa de estudantes o que realmente pretendem para o presente, não para o futuro. As mudanças que estão por vir com a participação deles(as) ainda não se sabe quando e se se materializarão. A resistência já começou.  Uma nova Política Pública de Educação está em gestação. E pará-la, não tem mais jeito.

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